O guppy é um peixe resistente, mas adoece quando a água piora ou quando entra peixe doente no aquário. Quase todas as doenças do guppy (o lebiste ou barrigudinho, Poecilia reticulata) seguem a mesma cadeia: alguma coisa estressa o peixe, a defesa dele cai, e um parasita, fungo ou bactéria que já estava por perto aproveita. Por isso o tratamento começa quase sempre pela água, não pelo remédio.
Um aviso honesto antes de tudo: este guia ajuda a reconhecer os casos mais comuns pelo que se vê a olho nu. Ele não substitui o diagnóstico. Sinais parecidos podem ter causas diferentes, e o remédio errado piora o peixe.
Antes de tratar: os três primeiros passos
Viu um guppy doente? Faça isto, nesta ordem:
- Teste a água. Amônia e nitrito (têm que estar em zero), pH e temperatura. Boa parte dos “surtos” é água ruim, e se resolve com troca de água, não com remédio. A água certa está em água para guppy.
- Isole o doente. Um balde ou aquário pequeno com água do próprio aquário, aeração e tampa. Isso protege os outros e deixa você tratar só quem precisa.
- Pergunte o que mudou. Entrou peixe novo? Fez troca grande de água? Esfriou? Faltou luz e o filtro parou? Comida demais? A resposta costuma apontar a causa.
Depois, olhe o padrão: um peixe só doente, com os outros bem, é caso individual. O aquário inteiro esquisito ao mesmo tempo é quase sempre água ou parasita espalhado.
Ictio: guppy com pontos brancos
O sinal: pontinhos brancos, do tamanho de um grão de sal, espalhados no corpo e nas nadadeiras. O peixe se esfrega nas pedras e no fundo, fecha as nadadeiras e, quando a infestação é grande, respira rápido.
A causa: um parasita (Ichthyophthirius). Ele entra quase sempre com peixe novo ou depois de uma queda de temperatura. Cada ponto é um parasita na pele; depois ele cai, se multiplica no fundo e volta em número muito maior.
O que fazer:
- Use um remédio próprio pra ictio, de loja de aquarismo, e siga a bula até o fim, mesmo que os pontos sumam antes. O remédio só pega o parasita na fase em que ele está solto na água, por isso o tratamento leva dias.
- Mantenha a temperatura estável na parte de cima da faixa do guppy (26 a 28 °C), sem oscilar. No calor o ciclo do parasita fica mais rápido e o tratamento termina antes.
- Sifone o fundo e troque água durante o tratamento, conforme a bula permitir.
- Aeração reforçada: peixe com a guelra atacada precisa de oxigênio.
Columnariose: manchas, boca branca e “algodão”
O sinal: manchas esbranquiçadas ou acinzentadas no corpo, muitas vezes no dorso, como uma sela; boca com aparência de algodão ou de fungo; bordas das nadadeiras comidas. Pode avançar rápido, em um ou dois dias.
A causa: uma bactéria (Flavobacterium columnare), comum na água. Ela ataca peixe estressado: água suja, superlotação, transporte, manuseio, calor.
O que fazer:
- Isole os afetados e melhore a água do aquário principal na hora: troca de água e sifão.
- Na columnariose, não suba a temperatura: o calor favorece a bactéria.
- Caso leve pode responder a água impecável mais sal em dose baixa (veja a seção do sal). Caso que avança precisa de tratamento antibacteriano, e aqui vale procurar um veterinário que atenda peixes, porque antibiótico sem orientação costuma falhar e cria resistência.
- Não confunda com fungo: a columnariose é bactéria e muitas vezes vem antes do fungo, que aproveita a ferida.
Fungo
O sinal: tufos brancos ou acinzentados, como algodão, presos num ponto do corpo, quase sempre em cima de um machucado, de uma escama arrancada ou de uma ferida de outra doença.
A causa: fungo de água doce (Saprolegnia e parentes) que vive em qualquer aquário e só ataca tecido ferido ou peixe muito fraco.
O que fazer:
- Pergunte em cima de quê o fungo nasceu: briga, rede, transporte, columnariose, água ruim. Tratar só o fungo e não a causa faz ele voltar.
- Isolar, água limpa e sal em dose baixa costumam ajudar nos casos leves.
- Para casos claros há remédio antifúngico em loja de aquarismo; siga a bula.
Podridão de nadadeira
O sinal: a borda da cauda e das nadadeiras fica esbranquiçada, desfiada, e vai encurtando. Às vezes a ponta fica avermelhada.
A causa: bactéria oportunista, quase sempre por água ruim (amônia, nitrato acumulado, sujeira) ou nadadeira machucada por outro peixe. Guppy macho de cauda grande é o mais atingido.
O que fazer:
- Água impecável primeiro: trocas mais frequentes, sifão, menos comida, menos peixe por litro.
- Sal em dose baixa ajuda nos casos leves. A nadadeira volta a crescer quando a causa sai.
- Se a podridão chega no corpo do peixe, ou continua avançando com a água boa, precisa de tratamento antibacteriano com orientação.
Nadadeira fechada ou colada no corpo
O sinal: o guppy nada com a cauda e a dorsal fechadas, como um pincel. Às vezes fica parado num canto.
A causa: isso não é uma doença, é um aviso. Os motivos mais comuns: água ruim, frio, troca brusca de água, estresse de transporte, macho perseguindo demais, ou o começo de um parasita.
O que fazer: teste a água, confira a temperatura, observe se aparecem pontos, manchas ou esfregação nos próximos dias. Na maioria das vezes, corrigida a água, o peixe abre a nadadeira em um ou dois dias.
Parasitas externos e vermes
Além do ictio, outros parasitas aparecem no guppy:
- Parasitas de pele e guelra (os que não se veem a olho nu): o peixe se esfrega, respira rápido, perde cor, fica com a pele opaca. Às vezes aparece uma camada fina, como pó dourado ou ferrugem, no corpo, o chamado veludo. O diagnóstico certo pede microscópio; remédio de amplo espectro de loja de aquarismo, seguido à risca, é o que o aquarista costuma ter à mão.
- Vermes intestinais: o sinal clássico no guppy é um fiozinho vermelho saindo do ânus do peixe (Camallanus). Outros sinais são peixe que come e mesmo assim emagrece, barriga funda. Verme se trata com vermífugo próprio pra peixe, e o aquário inteiro costuma precisar de tratamento, porque os outros já estão expostos.
Barriga inchada
Barriga grande nem sempre é doença. Veja qual é o caso:
- Fêmea grávida: barriga crescendo aos poucos, mancha escura atrás da barriga, peixe ativo e comendo. Normal. Os sinais estão em reprodução de guppy.
- Comida demais ou prisão de ventre: barriga cheia, fezes longas e penduradas, peixe meio parado. Um ou dois dias sem comida, depois porções menores.
- Hidropisia: barriga muito inchada e escamas arrepiadas, como uma pinha vista de cima, às vezes com olhos saltados. É sinal de que o peixe não consegue mais controlar a água no corpo, e pode vir de infecção interna ou de órgão falhando. Em geral, quando ela aparece, o peixe já está muito doente e a recuperação é rara. Isole, e trate um caso repetido como alerta contra a água e a lotação.
Espinha torta
Guppy com a coluna curva pode ter nascido assim (genética ou consanguinidade), ter ficado velho, ou estar com uma doença interna. Não tem cura pra coluna já torta. O que se faz é não usar esse peixe na reprodução e, se for um aquário com vários casos, revisar a origem das matrizes e a água.
Sal: quando ajuda e como usar sem errar
O sal comum, sem iodo nem aditivo, é a ferramenta mais barata do aquarista, e o guppy é um peixe que tolera sal melhor que muitos peixes de água doce. Ele ajuda o peixe a gastar menos energia controlando a água do corpo, reforça o muco que protege a pele e incomoda parasitas e fungos.
Mesmo assim, use com cautela:
- A dose usual é de 1 a 3 g por litro, como banho prolongado, num aquário ou balde de tratamento, por alguns dias. Comece no piso, principalmente com filhote.
- Dissolva antes numa caneca de água do aquário e coloque aos poucos, em duas ou três vezes no mesmo dia. Despejar tudo de uma vez é choque.
- Pese o sal. Uma colher de chá rasa de sal fino tem entre 5 e 6 g, mas varia; na dúvida, balança de cozinha.
- Plantas e outras espécies podem sofrer: por isso o banho é no aquário de tratamento, não no aquário plantado da sala.
- O sal não evapora. Ele só sai quando você troca água. Pra voltar ao normal, faça trocas parciais com água sem sal ao longo de alguns dias.
- Sal não resolve verme, não resolve hidropisia e não substitui água limpa. Em cima de amônia alta, ele só atrapalha.
Prevenção: o que evita quase todas as doenças
- Água estável: 24 a 28 °C, pH 7,0 a 8,0, água dura, amônia e nitrito em zero, troca de 25 a 30% por semana com água sem cloro e na mesma temperatura.
- Não superlotar: até 1 adulto a cada 2 litros, com filtro e aeração. Conte os filhotes que vão nascer.
- Comida certa: o que eles comem em 2 minutos, duas vezes por dia. Sobra no fundo vira amônia. O cardápio está em alimentação do guppy.
- Quarentena de 2 a 3 semanas pra todo peixe novo, num aquário separado, antes de juntar com os seus. É nesse tempo que aparece o ictio, a columnariose ou o verme que veio de fora. Como receber o peixe está em aclimatar guppy.
- Observar todo dia, na hora da comida: peixe que não vem comer é o primeiro sinal de quase tudo.
Pra loja, a quarentena é ainda mais importante: uma leva de peixe doente no aquário de exposição contamina os outros e vai pra casa do cliente. A rotina de aquário de loja está em guppy na loja.
Quando procurar um veterinário de peixes
Procure um médico-veterinário que atenda peixes ornamentais quando:
- vários peixes morrem em poucos dias e a água testa bem;
- a doença avança mesmo com o tratamento certo, seguido até o fim;
- o quadro pede antibiótico;
- você tem matrizes valiosas ou um aquário de loja com muitos peixes em risco.
Leve vídeo do peixe nadando, fotos de perto, os números da água e o histórico do que você já fez. Isso adianta muito o diagnóstico.
Peixe saudável começa na origem
A melhor prevenção é comprar peixe que já sai forte de onde nasceu. Aqui no Guppyrium os peixes crescem em 128 tanques de 3.000 L ao ar livre, cada variedade no seu tanque, e viajam em jejum, com oxigênio puro, machos e fêmeas em sacos separados. Vendemos casal e trio, com pedido mínimo de 50 peixes (25 casais).
Conheça as variedades no guia do peixe guppy, veja como o peixe viaja e faça a conta do pedido, com o envio incluso pro seu CEP, na calculadora.