Escola da Água

M4 Lição 23 · 30 min

Parasitas externos: cobre, trichlorfon e malaquita

Chegamos aos produtos pesados do módulo — os três antiparasitários clássicos da piscicultura contra o que ataca o peixe por fora: sulfato de cobre, trichlorfon e verde de malaquita. São ferramentas de verdade, com um século de uso, e são também as que mais matam plantel nas mãos de quem copia receita sem entender a água. Tudo que você aprendeu na lição 20 — dose condicionada à água, volume real, solução-mãe, EPI — foi treino para esta lição.

Conheça o inimigo antes da arma

"Parasita externo" cobre três grupos muito diferentes, e cada arma tem seu nicho:

  • Protozoários: o íctio (Ichthyophthirius, os pontos brancos), tricodina, costia e parentes. Microscópicos ou quase, ciclo de vida rápido, com fases livres na água. Armas: verde de malaquita, banhos de sal, e cobre em casos amplos.
  • Crustáceos parasitas: a Lernaea (verme-âncora, aquele "fiapo" fincado no corpo do peixe) e o Argulus (piolho-de-peixe, um disco achatado que anda sobre a pele). Visíveis a olho nu, ciclo longo com ovos e larvas no ambiente. Arma específica: trichlorfon.
  • Monogenéticos: vermes minúsculos de guelra e pele (Gyrodactylus, Dactylogyrus), causa clássica de peixe que respira acelerado, raspa nos objetos e definha "sem doença visível". A arma certa é o praziquantel — que este curso trata na lição 24, junto dos demais vermes. Cobre e trichlorfon pegam monogenéticos só parcialmente; se o quadro é de guelra, não insista na arma errada.

O sintoma que os três grupos compartilham: peixe raspando ("flashing"), nadadeiras fechadas, respiração rápida, muco excessivo dando aspecto opaco, e emagrecimento no quadro crônico. O diagnóstico fino — qual grupo é — vem da lição 25; aqui você aprende a usar cada arma quando a indicação existir.

Sulfato de cobre: potente, e refém da alcalinidade

O cobre (na forma de sulfato de cobre pentahidratado, CuSO₄·5H₂O, o "pó azul") é o antiparasitário de mais largo espectro contra protozoários externos — e o produto desta lição com a janela mais estreita entre remédio e veneno, porque a toxicidade dele é ditada pela química da SUA água.

O que importa entender: o que mata parasita (e peixe) é o cobre livre (íon Cu²⁺). Em água alcalina, carbonatos e matéria orgânica "algemam" a maior parte do cobre em formas complexadas pouco ativas; em água mole, quase toda a pesagem vira cobre livre de uma vez. A mesma colher de pó é tratamento brando numa água e extermínio na outra. Não existe dose universal de cobre — existe dose para uma alcalinidade.

A regra que governa tudo:

Dose de CuSO₄·5H₂O em mg/L = alcalinidade total (ppm de CaCO₃) ÷ 100. Abaixo de 50 ppm de alcalinidade, cobre está VETADO.

Exemplos: alcalinidade 120 ppm → máximo 1,2 mg/L (1,2 g por 1.000 L). Alcalinidade 200 ppm → 2 mg/L. Alcalinidade 40 ppm → não se aplica cobre, ponto; ou você sobe o KH primeiro (módulo 1) ou usa outra ferramenta. Para converter do seu teste de KH: 1 °dKH ≈ 17,9 ppm de CaCO₃ — o piso canônico de KH 4 °dKH equivale a ~71 ppm, ou seja, um tanque dentro do alvo do curso comporta no máximo ~0,7 mg/L de sulfato de cobre.

E a pesagem é só metade do controle: em sistemas ornamentais, o alvo terapêutico é 0,15–0,25 mg/L de cobre livre, medido com teste de cobre (kit colorimétrico, barato). Doseia-se pela regra, confirma-se com o teste, e nunca se "reforça" porque o parasita não caiu no dia seguinte.

Aplicação bem feita: solução-mãe, aplicação em 2–4 parcelas ao longo da manhã, distribuição proporcional se houver mais de um recipiente (lição 20), peixe em jejum, aeração reforçada — cobre agride brânquia e derruba a tolerância do peixe à falta de oxigênio; espere os peixes mais quietos ou nos cantos por 1–3 dias. Não aplique em pH extremos (em pH baixo o cobre livre dispara; em pH muito alto ele precipita e perde efeito) nem em água acima de ~28 °C. Água que turva 1–2 dias depois costuma ser mortandade microscópica — filtragem mecânica resolve; TPA de 50% é o plano B.

Dois mitos para enterrar de vez. Primeiro: "o peixe não absorve cobre além do necessário". Falso — cobre entra passivamente pelas brânquias, machuca o epitélio branquial (por isso a "falta de ar") e se acumula no fígado; o peixe não tem como vetar a entrada. Segundo: "em 3 dias o cobre some da água". Falso — cobre é elemento, não se degrada: ele precipita e se acumula no sedimento, de onde pode remobilizar se o pH cair. Tanque que recebe cobre de rotina por anos vira um estoque de cobre no fundo. Consequências práticas: cobre não é produto de calendário, é produto de indicação; a água de descarte pós-cobre não vai para horta nem curso d'água; e sifonar o fundo depois do tratamento remove parte do passivo.

Efeito colateral assumido: cobre extermina todos os invertebrados — caramujos, camarões, dáfnias, larvas. Num tanque tratado, esqueça criação de alimento vivo e caramujos por muito tempo. Os caramujos, aliás, servem de bioindicador involuntário: se despencaram após o cobre e voltaram semanas depois, o cobre agiu e diluiu — mas isso não contradiz o acúmulo no sedimento.

Atenção

Cobre é o produto que mais mata plantel por receita copiada. Antes de qualquer aplicação: meça a alcalinidade NO DIA (água de poço muda com chuva e estação), aplique a regra alcalinidade ÷ 100, respeite o veto abaixo de 50 ppm e confirme com teste de cobre livre (alvo 0,15–0,25 mg/L). Sem teste de alcalinidade em mãos, não existe tratamento com cobre — existe roleta.

Trichlorfon: a arma específica contra os crustáceos

Quando o inimigo é Lernaea ou Argulus, sal e malaquita não resolvem — o tratamento clássico na água é o trichlorfon (metrifonato), um organofosforado que age no sistema nervoso do crustáceo. Diferente do cobre, que é produto de contato, o trichlorfon é absorvido e distribui-se pelo sistema, alcançando parasitas em lugares que o contato não pega.

Dose: 0,25–0,5 mg/L (0,25–0,5 g por 1.000 L) em imersão prolongada. E aqui está o segredo que separa quem elimina a praga de quem convive com ela para sempre: ovos e estágios larvais não morrem na aplicação. Uma dose única mata os adultos, você comemora, e três semanas depois a infestação renasceu dos ovos que ficaram no fundo. O esquema correto ataca o ciclo:

0,25–0,5 mg/L, repetindo a cada 5–7 dias, num total de 3–4 aplicações.

Cada repetição pega a geração que eclodiu desde a anterior, antes de ela maturar e botar ovos. Menos aplicações = ciclo aberto; e subdosar "para ir com calma" é pior que não tratar, porque seleciona parasitas resistentes ao produto.

As condições de água são inegociáveis, porque o trichlorfon tem um destino químico perigoso: em pH alcalino e calor, ele se converte aceleradamente em diclorvós (DDVP) — outro organofosforado, muito mais tóxico para os peixes e para você. Regras práticas: dosar apenas com pH até ~7,5–8,0 (meça antes; lembre que em tanque outdoor com fotossíntese o pH da tarde é o pico do dia — dose de manhã cedo), em água abaixo de ~27–28 °C, e nunca "compensar" achando que o produto ficou fraco. A mesma conversão acontece no pote: trichlorfon úmido, empastado ou vencido já é parcialmente diclorvós — descarte, sempre (lição 20).

Na aplicação: solução-mãe obrigatória (o pó decanta — mexa durante a distribuição), volume real, distribuição uniforme. Os peixes toleram bem a faixa de dose — apetite reduzido por um dia é comum; alevinos são mais sensíveis, prefira 0,25 mg/L em berçário. TPA de 30–50% entre as aplicações mantém a água em ordem sem atrapalhar o esquema (você repõe a dose no volume total na aplicação seguinte, não no meio).

Atenção

Trichlorfon é da mesma família dos inseticidas agrícolas que exigem receituário: inibidor de colinesterase, tóxico por inalação e contato, suspeito de carcinogenicidade — a ponto de ser banido da aquicultura em vários países. Manuseio SEMPRE com luvas nitrílicas e máscara contra pó, em local ventilado; utensílios dedicados; sobras e embalagens não vão para o lixo comum nem para a água. Sintomas de exposição (dor de cabeça, salivação, náusea, tontura): atendimento médico informando organofosforado.

Verde de malaquita: o clássico contra íctio e fungo

O verde de malaquita é um corante sintético e um dos produtos mais eficazes que existem contra fungos (Saprolegnia, os "algodões" em peixe e ovas) e contra o íctio. É também carcinogênico e teratogênico — proibido em peixe destinado a consumo justamente porque persiste na carne — e um produto que se manuseia com o mesmo respeito do trichlorfon: luvas, sem contato com pele, sem inalar o pó, utensílios dedicados. Ele mancha tudo o que toca, o que ao menos ajuda a lembrar.

Prepare uma solução estoque para nunca pesar miligramas na hora: 1 g de verde de malaquita em 1 L de água destilada (garrafa escura, rotulada, longe de crianças). Essa solução tem 1.000 mg/L, então: 1 mL de estoque em 10 L de água do tanque = 0,1 mg/L — a aritmética inteira do produto numa seringa graduada. Anote a receita no rótulo: se um dia refizer o estoque em outra concentração, toda a sua dosagem muda junto.

Dose em banho prolongado: 0,05–0,15 mg/L. Comece em 0,05–0,1 mg/L; a faixa alta fica para adultos robustos em água na faixa fria do alvo. A malaquita fica mais tóxica com temperatura alta, em água mole e para alevinos e peixes debilitados — em berçário, use a metade da dose ou prefira sal. Banhos curtos e concentrados (0,5–1 mg/L por 30–60 min, em balde, com observação contínua como no banho de sal) são opção para peixes isolados com fungo localizado.

Contra o íctio, o tratamento é uma campanha, não um tiro. O ponto branco que você vê é o parasita encapsulado DENTRO da pele do peixe, blindado contra qualquer química da água. A malaquita só mata a fase livre — o parasita que deixou o peixe e os recém-nascidos que procuram um hospedeiro. Por isso o esquema é: 0,05–0,15 mg/L, repetindo a cada 2–3 dias, por 10–14 dias, mantendo até alguns dias depois do último ponto branco sumir. A 24–27 °C o ciclo do íctio gira em poucos dias, o que joga a favor: cada geração que sai do peixe encontra o veneno esperando. Interromper no meio porque "melhorou" devolve o tanque à estaca zero.

Um aviso sobre "o produto sumiu": a cor da malaquita desaparece da água em poucos dias (degrada com luz e matéria orgânica), mas o composto reduzido persiste adsorvido em superfícies e no peixe por muito tempo. Cor zerada não é passe livre para redosar além do esquema.

Qual arma para qual guerra

Fechando o mapa da lição, com as outras ferramentas do módulo no lugar:

Inimigo Primeira escolha Observações
Íctio (pontos brancos) Verde de malaquita em campanha de 10–14 dias Sal 3–5 g/L ajuda em quadro leve
Fungo (algodão) Malaquita localizada ou banho; sal 3–5 g/L em quadro leve Fungo quase sempre é secundário: procure a causa
Tricodina, costia e protozoários de pele Banho de sal 10–30 g/L; malaquita; cobre se generalizado Cobre só com a regra da alcalinidade
Lernaea, Argulus Trichlorfon 0,25–0,5 mg/L × 3–4 aplicações Única indicação forte do trichlorfon
Vermes de guelra/pele (monogenéticos) Praziquantel (lição 24) Cobre/trichlorfon são apenas parciais aqui

No seu criadouro

Num tanque de 3.000 L, as pesagens desta lição são minúsculas: com alcalinidade de 120 ppm, o teto de cobre é 3,6 g de pó azul para o tanque inteiro; de trichlorfon, 0,75–1,5 g; de malaquita, 150–450 mL da solução estoque. É por isso que a balança de 0,01 g e a solução-mãe da lição 20 não eram luxo. E como sua água vem de poço e nascente, meça KH/alcalinidade no dia de cada tratamento — chuva forte na semana pode ter mudado a conta do cobre.

O que levar daqui

  • Cobre: dose máxima = alcalinidade (ppm CaCO₃) ÷ 100, em mg/L de CuSO₄·5H₂O; vetado abaixo de 50 ppm; alvo de 0,15–0,25 mg/L de cobre livre confirmado com teste. Ele agride brânquias, extermina invertebrados e acumula no sedimento — não é produto de rotina.
  • Trichlorfon: 0,25–0,5 mg/L repetido a cada 5–7 dias, 3–4 vezes — dose única não quebra o ciclo de Lernaea/Argulus. Nunca em pH > 8 nem no calor, nunca produto úmido/vencido: a conversão em diclorvós é o perigo invisível.
  • Malaquita: estoque 1 g/L (1 mL → 0,1 mg/L em 10 L); íctio se trata em campanha de 0,05–0,15 mg/L por 10–14 dias, porque só a fase livre do parasita morre.
  • EPI sempre: os três produtos exigem luvas nitrílicas; trichlorfon e malaquita, também máscara contra pó — e descarte responsável, longe de horta e curso d'água.
  • Arma certa para inimigo certo: crustáceo é trichlorfon, íctio/fungo é malaquita, protozoário amplo é cobre bem condicionado — e verme de guelra é praziquantel, assunto da próxima lição.

Fixando

Responda sem olhar o texto. Acertar tudo conclui a lição.